Nossa História
Glossário (categorias interpretativas):
-
Indo-brasilidade
-
Mito da Imigração
-
Mito do Imigrante Salvador
-
Colonizador Progressista
-
Colonialista Reacionário
-
A Segunda Colonização
-
A Recolonização do Brasil
-
Instrumentalização do Trauma da Escravidão
-
Manipulação do Trauma da Escravidão
-
Teleologia da História Brasileira
Sinopse Indo-Brasilidade.
Meu nome é Hugo Santarém Rodrigues, tenho 43 anos, sou brasileiro, nascido em Brasília, graduado em Comunicação Social. Meus pais são do interior da Bahia, meu pai negro, minha avó indígena e meu avô descendente de portugueses dos Açores, vindo ao Brasil no século XVIII. Aos 22 anos, em 2004, fui morar em São Luís do Maranhão, onde comecei a pesquisar sobre o trabalho escravo contemporâneo. Minha pesquisa de 2004 foi a base para o longa-metragem Pureza, lançado em 2022, sobre Pureza Lopes Loyola, ganhadora do prémio Anti-Slavery International em 1997. Desde 2004, tenho me dedicado a pesquisar, de forma independente, sobre práticas neocoloniais.
Isso me levou ao interesse sobre migrações brasileiras e suas reais influências e impactos nas culturas, tradições e folclore em comunidades regionais do Brasil. Meu processo de pesquisa, para além de eufemismos e interpretações consagradas, identificou inconsistências em trabalhos tidos como canónicos sobre esses temas. Essas inconsistências levou-me a aprofundar uma investigação sobre as circulações e interconexões entre a Índia Portuguesa e a América Portuguesa, temas para os quais existe ampla bibliografia sobre fluxos de pessoas e mercadorias, embora haja menor sistematização sobre trocas de saberes e de cultura. A partir de uma abordagem de histórias conectadas e com a minha experiência como documentarista, fotógrafo e pós-graduado em Artes Visuais, comecei uma análise comparativa de iconografias regionais. Minha pesquisa bibliográfica indicou, com evidências consistentes, sobreposições, ecos ou reminiscências indo-lusitanas na cultura brasileira. De forma independente, realizei trabalho in loco na Ásia, que me conduziu a novas descobertas até então desconhecidas, das quais já possuo forte comprovação documental, bibliográfica e iconográfica. Constatei que muito do que se considera autóctone, bem como elementos associados à “brasilidade”, são de origem indo-lusitana ou apresentam forte influência ou contribuição indo-lusitana. Identifiquei assim um processo de transferência de traços culturais alóctones, nativizados por meio de negociações internas de hibridação cultural, posteriormente representados e interpretados como signos de identidade cultural e de patrimônio cultural de povos e comunidades tradicionais brasileiras; por fim, exotizados por mediadores (inclusive acadêmicos). Neste contexto, recorro ao conceito de Orientalismo, de Edward Said, adaptando-o à realidade brasileira, em que mediadores — muitos deles formados por repertórios teóricos eurocêntricos — contribuíram para consolidar bases conceptuais exotizantes que se consolidaram no campo académico e na cultura popular brasileira.
Por isso meu desejo em ingressar no Mestrado em Estudos Brasileiros para aprofundar, no âmbito académico, os motivos e as consequências do epistemicídio e do consequente apagamento dessas histórias conectadas entre o mundo indo-lusitano e o luso-brasileiro na construção da identidade brasileira, investigando processos que obscureceram essas proveniências e favoreceram a naturalização, enquanto “autóctones”, de determinados elementos hoje associados à “brasilidade”. Para nomear e problematizar esse fenómeno, proponho o neologismo indo-brasilidade, que pretendo defender como categoria operatória e hipótese interpretativa.
Minha hipótese tinha como base o reconhecido sincretismo entre negros, indígenas e portugueses no Brasil. Porém, esses portugueses que se encaminharam para a América Portuguesa já possuíam experiências anteriores na Ásia, ou carregavam o ethos português da época no seu desejo pelas coisas do Oriente; esse agente colonizador português, já híbrido culturalmente, contribuiu fortemente para as construções de matrizes culturais brasileiras. O trabalho de pesquisa de Philomena Sequeira Antony (Universidade de Goa), em Relações intracoloniais: Goa–Bahia (1675–1825), constrói uma base bibliográfica que comprova o intenso intercâmbio comercial e trânsito de pessoas entre as capitais dos impérios oriental e ocidental de Portugal. Gilberto Freyre, em Sobrados e Mucambos, discute influências orientais na cultura brasileira.
Investiguei fontes primárias, listadas em trabalhos canónicos sobre a cultura brasileira e notei viés em ignorarem indícios ou hipóteses interpretativas que apontavam para caminhos orientais daquilo que se diz “brasileiro”. A minha hipótese se consolida em tese e se materializa na minha investigação registrada em formato de documentário, em que documentei todo meu processo de pesquisa, onde aponto o caminho histórico não só da construção dessas culturas, mas também do apagamento de suas origens, remontando ao trabalho do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro (IHGB), fundado em 1838, cuja função, entre outras, foi não apenas a pesquisa histórica sobre o Brasil, mas também a criação de uma narrativa e identidade cultural próprias, após a independência do Império Português. Somou-se a isso o facto de o Brasil, no período posterior à independência, ter atravessado sucessivos regimes autoritários que, de modo continuado, implementaram um projeto de arquitetura social, moldando a cultura e a identidade nacionais e consolidando narrativas oficiais do Estado. O questionamento que levanto em minha pesquisa busca não apenas reexaminar o processo de construção da nação/identidade nacional, mas também, com propósito inovador, revisitar e promover o resgate de histórias apagadas no discurso oficial e apresentar uma visão conciliadora do passado luso-brasileiro.
Em 2015, fiz um teste de DNA para saber minhas origens e planeei viajar para esses locais. Em 2018, fui à África para pesquisar parte das minhas próprias origens e traçar um paralelo entre a construção do meu DNA e as origens culturais do Brasil. Para isso eu estava me baseando em trabalhos canónicos e na média mainstream sobre matrizes culturais brasileiras e “ancestralidade”. Não achando satisfatórias as respostas que encontrei nesse processo foi aí que ampliei o escopo da minha investigação para todo o Império Português e foi quando descobri fontes primárias e secundárias ignoradas ou desprezadas. Eu já havia viajado à Ásia em 2015 mas voltei novamente nos anos 2018, 2023 e 2024, mas dessas vezez com o intuito dessa pesquisa que vos apresento. Minha família tem origem humilde e mestiça e uso essa experiência empírica para uma análise mais ampla da sociedade brasileira, onde percebi uma reprodução da Lenda Negra contra portugueses, o que criava um efeito de framing e me fazia ignorar minha própria “ancestralidade portuguesa”. O projeto é também uma forma de recuperar o lugar de fala (standpoint), em relação aos processos migratórios e formadores de identidade no Brasil, que os cânones oficiais ressignificaram a favor de projetos das elites.
A tese aqui apresentada já está produzida em forma de documentário, a ser lançado online, de forma independente, ainda este ano. Para aprofundamento da pesquisa e documentário entrevistei as investigadoras Ângela Xavier e Isabel Corrêa; essas entrevistas suscitaram novas possibilidades e caminhos. Por isso, considerei a Universidade de Lisboa o local ideal para a continuidade da minha pesquisa no âmbito académico, onde o corpo acadêmico pode me indicar orientações e questões complementares às do meu repertório como brasileiro, num percurso múltiplo de contribuições, além do acesso que a Universidade propiciará a novas fontes de difícil acesso no Brasil. Trata-se de uma pesquisa que reconstrói e reconecta histórias separadas dos antigos territórios ultramarinos portugueses e da sua capital. Toda a tese, neologismos e hipóteses interpretativas encontram-se já registados pelas leis de direitos autorais e de propriedade intelectual.
Roteiro de Mito da Imigração
Existe um desconforto na sociedade brasileira…
Uma sensação de que algo está errado — de que algo deu errado.
Uma sociedade dividida, em constante tensão… todos se sentem explorados e enganados de alguma forma… E, para conter a sociedade e criar coesão social, construíram uma História oficial — uma versão incompleta — que perdurou até agora.
1884. ALEMANHA, BERLIM.
De 15 de novembro de 1884 a 26 de fevereiro de 1885, 14 potências reuniram-se em Berlim, a convite do chanceler alemão Otto von Bismarck, e assinaram o Ato Geral de Berlim.
O objetivo: fixar leis e regras para legitimar uma expansão colonial em que autorizam a ocupação de território, de acordo com os interesses dessas potências.
A conferência marcou o início do período que ficou conhecido como Novo Imperialismo, uma colonização formal em que se impuseram à força sobre outros povos.
Essa conferência ficou popularmente conhecida como a Partilha da África.
Mas não foi somente a Europa que participou desse processo, e não foi somente na África. Outros países já estavam replicando esse comportamento, tendo a Europa como referência “civilizatória”.
Japão:
1879, o Japão depõe o monarca do Reino de Ryukyu, extingue o reino, e o transforma na Província de Okinawa. Texto: Shō Tai é deposto e depõem o Reino de Ryukyu
1894–1895, o Japão inicia a Primeira Guerra Sino-Japonesa ao provocar e atacar a China. A derrota. A dinastia Qing cede Taiwan.
Texto: Tratado de Shimonoseki (1895). Elites locais proclamam a República de Formosa, mas o Japão rapidamente esmaga a resistência e a tentativa de autonomia, instaurando governo colonial na ilha.
Estados Unidos:
1893 - Com apoio dos Estados Unidos, um golpe derruba a rainha do Havaí. 1898. O Havaí é anexado pelos Estados Unidos.
Texto: Liliʻuokalani; 1898 (Resolução Newlands).
Alemanha:
1884 - A Alemanha ocupa Camarões; o rei dos Dualas é enforcado por resistir ao regime colonial. Texto: A Alemanha impõe protetorado e ocupa Camarões (1884); Rudolf Duala Manga Bell é enforcado por resistir ao regime colonial (1914).
Na Namíbia, a Alemanha extermina as autoridades Herero e Nama Texto: Guerras de 1904–1908, eliminando e dispersando suas chefias tradicionais.
Subordina sultanatos e chefaturas onde hoje são a Tanzânia, Ruanda e Burundi. Texto: África Oriental Alemã (Tanzânia, Ruanda, Burundi) e esmaga as revoltas de Abushiri (1888–89) e Maji Maji (1905–07) para consolidar a ocupação. No Togo, estabelece protetorado (1884–85) e subordina a autoridade indígena ao domínio alemão.
Itália:
A Itália invade a Etiópia levando ao exílio do imperador Etíope e ocupa a Eritreia proclamando-a colônia. Cria a colônia da Somália Italiana e conquista a Líbia. Texto: A Itália invade a Etiópia (1935–36), levando ao exílio do imperador Haile Selassie (1936–41). Na Eritreia, ocupa Massawa (1885) e proclama a colônia (1890); Ras Alula Engida, nobre/general etíope, é derrotado em campanhas na fronteira. Na Somália, consolida a dominação colonial ao longo do fim do século XIX e início do XX, e conquista a Líbia (1911–12) do Império Otomano.
Mas a colonização não era apenas pelos recursos.
Alemanha, Itália e Japão sofriam de forte pressão demográfica e pobreza em massa.
Na década de 1960, o professor alemão Hans-Ulrich Wehler desenvolveu a tese do “imperialismo social”, onde reconhece que uma maiores motivações para o imperialismo era a busca por uma solução para o problema de excedente populacional. A emigração foi apresentada como solução colonial onde não podiam atuar militarmente. Texto: Sozialimperialismus em Bismarck und der Imperialismus, 1969)
E o método para isso? Colonialismo de povoamento. O historiador britânico Patrick Wolfe descreve o colonialismo de povoamento como uma estrutura duradoura que opera pela “lógica de eliminação”: eliminar e deslocar os povos locais para substituí-los por colonos e, ao longo do tempo, capturar as posições de prestígio econômico e social.
Toda essa violência era escondida atrás de palavras como:
Ordem
Progresso
Modernização
Desenvolvimento
Civilização
A mentira que sempre nos contaram é que o Brasil não tomou parte desse processo que mudou inteiramente o mundo!
Mas em 15 de novembro de 1889 instaura-se a primeira ditadura militar no Brasil, que não só utilizou do mesmo sistema de colonização dentro do Brasil, sob o contexto de colonialismo interno, como também cooperou com as companhias colonizadoras dessas potências internacionais.
Setores militares, de orientação positivista, que difundiam uma visão eurocêntrica e acreditavam na hierarquia e na superioridade cultural e científica europeia, juntaram-se à elite cafeeira escravagista, que operou para ampliar ainda mais seus poderes. Juntos, atuaram diretamente com as companhias colonizadoras. É esse encadeamento que, na minha pesquisa, denomino “recolonização do Brasil”.
A Constituição de 1891 redesenhou toda a estrutura fundiária do Brasil e reforçou o controle do Estado sobre o território brasileiro.
Ruy Barbosa copiou no Brasil o sistema de torrens, criado durante a colonização da Austrália. Na Austrália, esse sistema já é amplamente reconhecido como instrumento do sistema colonial de povoamento, e países que aplicaram esse sistema, hoje, já tomaram medidas de correção.
No Brasil, o sistema de Torrens não atingiu somente terras indígenas; esse sistema afetou milhões de brasileiros, ecoando as políticas coloniais consolidadas a partir da Conferência de Berlim, que legitimavam o domínio sobre populações consideradas “não civilizadas”, ou racialmente inferiores.
Em 31 de Maio de 1890 o sistema de Torrens é criado, apenas um mês depois, é editada a lei que permitiu a colonização.
O marechal Deodoro, com o Decreto n.º 528, de 28 de junho de 1890, promove a vinda em massa de colonizadores ao território brasileiro por meio de mudanças na Inspetoria Geral das Terras e Colonização. Foram firmados acordos com os mesmos países colonizadores que tinham problemas internos de pressão demográfica. No Brasil utilizaram o mesmo linguajar da Conferência de Berlim: Uma missão civilizatória. O Brasil deveria civilizar-se.
No Brasil, instalaram-se diversas empresas de colonização como:
Alemãs:
Texto:
1895 - Companhia Colonizadora Hanseática (Hanseatische Kolonisations-Gesellschaft)
1897 - Forma a colônia Hansa-Hammonia no Vale do Itajaí
Italianas:
Texto:
1890 - Angelo Fiorita & Cia.
1918 - Colonizadora Bertaso S.A.
Colonizadora Angelo de Carli & Irmão → Colonizadora Cruzeiro — Atuou no meio-oeste/planalto de SC (frente Cruzeiro); empresa privada de colonização.
Companhia Territorial Sul Brasil (CTS Brasil) — Forte na colonização do Oeste de SC (anos 1920–50), articulando fluxo de descendentes do RS; muito citada na literatura agrária.
CITLA (Clevelândia Industrial e Territorial Ltda.) — Colonização privada no Sudoeste do PR; entrou em conflito com a CANGO (projeto estatal) nos anos 1950.
As japonesas:
Texto:
1917 - Kaigai Kōgyō Kabushiki Kaisha – KKKK (Overseas Enterprise/Development Co., Ltd.)
1928 - Companhia de Colonização Sul-Americana S.A. (Nantaku; japonês: 南米拓殖株式会社 — romanização: Nanbei Takushoku Kabushiki Kaisha) – (South America Colonization Company Limited - )
1928 - BRATAC – Sociedade Colonizadora do Brasil Ltda. (Burajiru Takushoku Kumiai)
A judaica:
Texto:
1904 - Jewish Colonization Association (JCA/ICA)
Década de 1910 — as primeiras redes sionistas, que reivindicavam território na Palestina, instalam-se no Brasil.
Britânica
Texto:
1924 - Paraná Plantations Ltd. que fundou a cidade de Londrina (em referência a Londres).
Norte-americana:
Texto:
1912 - O norte-americano Percival Farquhar fundou a Southern Brazil Lumber & Colonization Company (SBL&CC) em Santa Catarina, criando a maior serraria da América do Sul. As florestas de araucárias que chegaram a ocupar 200mil KM2 hoje são apenas 1% disso.
Os brasileiros nativos — indígenas, mestiços, negros, caboclos e brancos pobres — foram expulsos de suas terras com a violência do coronelismo.
1895 - O diretor do Museu Paulista à época, o alemão Von Ihering, cita na Revista do Museu Paulista:
“Si se quizer poupar os indios por motivos humanitários é preciso que se tomem primeiro as providências necessárias para não mais perturbarem o progresso da colonização (...) todas as medidas a empregar devem calcar-se sobre este principio: em primeiro logar se devem defender os brancos contra a raca vermelha.” Mas essa citação não é dele, foram os colonos de Blumenau, Santa Catharina, que publicaram editorial no jornal Urwaldsbote.
1908 - Viena. No décimo sexto congresso internacional de americanistas em Viena, o etnografo Tcheco Frič, que trabalhava no Brasil, denunciou os alemães e italianos do Sul do Brasil pelo assassinato em massa e massacre de indígenas como Kaingang e Xokleng; Guarani e Xetá; Na denúncia está descrito que isso aconteceu durante processo de COLONIZAÇÃO no Sul do Brasil.
1911 - Londres. No congresso internacional das raças, João Batista Lacerda afirma que os Alemães e os Italianos consideravam os negros e mestiços uma ameaça para a prosperidade de suas colônias.
O mesmo decreto 528 que instituiu a colonização em massa também determinou que apenas 25% da população dessas colônias poderiam ser compostas por brasileiros. E foram para essas colônias que foram conduzidos os investimentos públicos e privados. A engenharia social era clara, o Brasil havia sido colonizado errado, em regiões tropicais e praticando miscigenação, ele deveria então ser recolonizado, de baixo para cima, a partir da liderança do novo elemento europeu. E para isso acontecer deveriam ser dadas a eles as melhores condições financeiras e de vida.
O Norte e o Nordeste foram impedidos de descer (foram criados campos de concentração para os flagelados da seca) .
Baseados em teorias de determinismo racial e climático, os brasileiros foram empurrados para regiões mais inóspitas e menos produtivas para dar espaço para os colonizadores.
As regiões mais produtivas e mais frias, no Sul, foram dadas para a maioria dos colonizadores europeus devido à crença no determinismo racial.
O Brasil foi dividido. Os brasileiros — dizimados pelo seu próprio Exército (Guerra de Canudos), expulsos de suas terras (Guerra do Contestado), afastados de seus trabalhos, de suas oportunidades, de seus saberes — o Brasil foi REColonizado.
Essa lógica foi estabelecida nacionalmente. Nos Estados, com a construção das novas capitais e bairros com maioria desses colonizadores. Na reforma e Bota Abaixo, da capital, Rio de Janeiro. Nas colônias étnicas. O Brasil esconde, mas praticou uma segregação pior que a dos EUA e o Apartheid como na África do Sul.
Para a construção dessas novas cidades coloniais surge uma parceria entre o governo e construtoras. Essa é a origem do clã da família Odebrecht, descendentes de alemães. E o começo de uma prática endêmica de corrupção relacionada aos agentes da colonização.
Foi assim que, para os colonizadores italianos, alemães e japoneses foi criado o sistema de colonato onde eles evoluíram para proprietários; e, para os brasileiros, um sistema que evoluiu para o boia-fria. O imigrante colonizador fixou-se nas terras, e o brasileiro era expulso da terra após os períodos de colheita, tornando-se um eterno sem terra e com renda somente suficiente para mantê-lo na pobreza.
A colonização era institucionalizada, inclusive a dívida com o governo para pagar os terrenos no sistema de colonato era chamada de “dívida colonial”.
Na literatura de colonização de povoamento, “settlers/colonos” são migrantes integrados a projetos de ocupação territorial, respaldados por Estado/empresas, cujo efeito é substituir povos locais e reconfigurar a ordem social.
Quando a entrada ocorre por subsídios estatais, subvenção pública, colonato dirigido, intermediação por companhias colonizadoras, critérios raciais de seleção e benefícios negados à população local — e quando isso se articula a regimes de terra e proteção coercitiva — esses fluxos passam a operar como colonização de povoamento. Nesses casos, não se trata apenas de imigração: funcionam como colonizadores (settlers).
Os agentes que planejaram e viabilizaram esse arranjo — companhias colonizadoras, burocracias e lideranças políticas — são “colonialistas” no sentido ideacional: conceberam, legitimaram e normalizaram esse sistema. Até hoje, atuam como bloco ideológico, reconfigurando matrizes culturais, fundiárias e econômicas em benefício próprio.
E se a Alemanha, Itália e Japão sofriam de pressão demográfica, e por isso tiveram que emigrar seus cidadãos, o que aconteceriam com os Brasileiros com esse aumento populacional? Para onde seriam empurrados?
Consolidam os elementos que tornaram o Brasil em um Estado colonial, segregado, e corrupto até os dias atuais: os latifundiários de terras; as construtoras; o exército que possibilitou isso; e os herdeiros desses colonizadores, que formam a maioria que luta contra qualquer medida de reparação e atribuem seu sucesso ao mito da meritocracia.
Após a Segunda Guerra Mundial, quando as justificativas coloniais e o racismo científico foram desmontados mundialmente, o Brasil, ao invés de se descolonizar, mudou seu termo: o termo Colonização foi deixando de ser usado e tornou-se apenas imigração. E há um grande motivo para isso…
Meu nome é Hugo Santarem, e em 2004 eu comecei uma pesquisa sobre trabalho escravo contemporâneo no Brasil. Pesquisa que se tornou o longa-metragem sobre a história de dona Pureza.
Desde então eu tenho pesquisado sobre as práticas neocoloniais no Brasil. Práticas, que, como a maioria dos brasileiros, também fui vítima.
Desde 2004, minha pesquisa, que resultou em Pureza, procurava responder como os herdeiros desses chamados “imigrantes” tinham absorvido práticas escravagistas e colonialistas, se, supostamente, vieram ao Brasil somente após a abolição e muito depois de o país já ter deixado de ser colônia. Mas o projeto saiu das minhas mãos e minha ideia original não foi para frente… Por isso, continuei minha pesquisa ao longo desses anos de forma independente, sem qualquer financiamento ou vínculos que enviassem minha pesquisa.
Coloquei a verdade como meta — uma missão de descobrir por que existe uma parcela específica da população brasileira que é maior vítima de práticas coloniais e por que a maioria dos criminosos é exatamente a outra parcela.
O maior caso de trabalho escravo contemporâneo no Brasil foi praticado pela Volkswagen nos anos 70 e 80… Uma empresa, alemã, e os altos funcionários acusados também eram alemães ou descendentes de alemães.
As vinícolas no Sul do Brasil, condenadas por trabalho escravo, são na maioria pertencentes a descendentes de italianos….
… Outro caso que chocou o Brasil foi o da ‘Mulher da Casa Abandonada’ o sobrenome dos dois: Bonetti…
Mas, mesmo assim, consolidaram um discurso de responsabilização de uma suposta herança brasileira nesse comportamento. Uma linguagem que recai sobre a própria vítima, a culpa da sua situação; como se estivéssemos perpetuando uma origem violenta, com discursos de que a nação foi formada por degenerados, bastardos, estupro… uma linguagem violenta que culpa justamente as maiores vítimas da calonização.
Criaram uma bibliografia que impõe aos que querem justiça social a necessidade de abandonar, ou até odiar, parte de suas raízes e de sua ancestralidade, em especial a portuguesa e a mestiça, porque colocam toda a culpa em apenas uma parte da nossa história e não na deles. Isso não é por acaso; é uma construção para mantê-los em uma posição de prestígio. É o que minha tese chama de instrumentalização do trauma da escravidão.
Foram cerca de 4,8 milhões de escravizados desembarcando no Brasil ao longo de 300 anos.
Mas entre 1889 e 1933, em apenas 44 anos, o Brasil recebeu por volta de 4 milhões de europeus e japoneses. Uma pressão demográfica nunca vista.
E por que trazer tantos? O Decreto Federal nº 528, de 28/6/1890, fixou subvenção de 120 francos por passagem de imigrante adulto às companhias de transporte marítimo e prêmio anual de 100.000 francos às empresas que transportassem ao menos 10.000 imigrantes no ano, sem reclamações. Companhias que tinham como sócios e dirigentes os republicanos como Ruy Barbosa e Quintino Bocayuva. Texto: 120 francos aproximadamente R$ 22.000,00 em 2025, e 100.000 francos aproximadamente R$ 19mi em 2025 usando parâmetros governamentais de lastro e orçamento, como ouro.
Mas, se tudo vinha de uma herança portuguesa e, principalmente, como culpa da escravidão, como esses alemães e italianos possuem tantas práticas coloniais?
É porque a História verdadeira não é bem assim.
Na África os Alemães estavam cometendo genocídios contra os povos Herero e Nama (1904 - 1908) … os Italianos criavam campos de concentração como os campos de concentração na Eritreia 1891, …campos de concentração na Líbia (1929–34)... cometiam massacres como na batalha de Halai 1894, promoveram genocídios na Etiópia (1937) …
Na Ásia, sob dominação japonesa, houveram massacres como Jeam-ri (Coreia, 1919) e Nanjing (China, 1937).
Esse processo não foi súbito, não é possível criar exércitos de racistas e genocidas ao redor do mundo de uma hora para outra. Entre os séculos XIX e XX, ideias de racismo científico e darwinismo social circularam amplamente de forma hegemônica; mesmo sem formação escolar, muitos foram socializados nesse repertório, que naturalizava hierarquias raciais e culturais e, na prática, legitimava violências e a apropriação de territórios.
Esse grande fluxo de colonizadores, intermediados por companhias colonizadoras, que possuíam práticas colonizadoras, faziam parte de um contexto global de ocupação e dominação territorial; muitos dos que chegaram aqui já estavam socializados e educados dessa forma e reproduziam esse repertório de objetivos coloniais, baseados em conceitos de superioridade racial e cultural.
Querem tentar imputar a uma herança da escravidão uma cultura que eles não estavam somente trazendo, mas como também criando.
A República Velha criou um ambiente institucional que viabilizou e legalizou muitas dessas dinâmicas. Enquanto muitos países precisaram ser invadidos para serem ocupados, no Brasil, sem ocupação estrangeira formal, o Exército Brasileiro criou um Estado autoritário que depois se consolidou como uma estrutura colonial contra a sua própria população; mantendo algumas elites civis no poder, e criando uma nova base eleitoral com a naturalização automática desses novos colonizadores, transformados em neobrasileiros, enquanto o próprio brasileiro pobre, não tinha direito ao voto.
A pobreza, a miséria, a estratificação, foi um projeto bem planejado e bem executado de engenharia social. E toda vez que essa estrutura foi ameaçada novas mentiras foram criadas e o exército agiu novamente (1964).
Isso é o que a historiografia chama de colonialismo interno; estranhamente, esse verbete no wikipedia nem sequer tem uma definição em português. E é isso que querem nos esconder.
Não é por acaso que o maior fluxo entre os contingentes formalmente recrutados por companhias colonizadoras e por programas públicos, eram os alemães, italianos e japoneses, as mesmas potências que depois se uniram como Potências do Eixo na Segunda Guerra Mundial, com a intenção de ampliar ainda mais seus domínios coloniais. Já os ibéricos — portugueses e espanhóis — vieram para o Brasil em um fluxo massivo fora desses arranjos de empresas colonizadoras, vieram principalmente pela política de portas abertas e subsídios criados pela República, especialmente em São Paulo e no Sul do Brasil.
Na denúncia feita por Fric ele diz:
German colonists in the states of Santa Catarina and Paraná in southern Brazil. He complained to the Americanists that slavery, wide-spread murder, and bands of “human-hunters” could not only be found in the “independent states of the Congo”: “such acts and much worse” were being financed by German colonists living in the “civilized states of Brazil.” Fric revealed that German settlers were hiring paid killers to eradicate entire tribes of Indians and permitting the sale and clandestine enslavement of their children.
E não é atoa que o Brasil se esforçou para desvincular-se do termo colonização.
(Explosão de Bomba Atômica)
Após o fim da Segunda Guerra o mundo chegou a conscientização que as consequências do racismo científico e as práticas coloniais haviam chegado a um limite. O mundo precisava se descolonizar e reparar os efeitos desse período, ou haveria a chance de acontecer de novo.
A ONU, criada em 1945, tinha como objetivo ser um ambiente de cooperação e resolução de problemas globais de forma diplomática, sem imposições de potências como ocorreu com a Conferência de Berlim em 1884. No caminho contrário daquele evento, foram criadas as definições de “sociedade coloniais”, e começam a criar os arcabouços anticoloniais e antirracistas e com isso, também, a Declaração Universal dos Direitos Humanos em 1948.
Em 1960, a Assembleia Geral aprovou a Declaração sobre a Concessão de Independência aos Países e Povos Coloniais (Res. 1514) e os Princípios que definem as três vias legítimas para a autodeterminação: independência, livre associação ou integração.
A Carta da ONU criou a categoria de Territórios Não Autônomos e determinou que as potências administrantes deveriam promover o autogoverno desses povos e prestar contas anualmente sobre suas condições
A partir de 1961, o Comitê de Descolonização passou a monitorar a implementação dessas normas e, até hoje, acompanha a lista de Territórios Não Autônomos.
Em 1965, cria-se a Convenção sobre Eliminação da Discriminação Racial – ICERD.
Foram criadas as metas das Décadas Internacionais para a Erradicação do Colonialismo (1ª Década: Res. 43/47, 1988; 4ª Década: Res. 75/123, 2020).
Consolidou o combate ao racismo e às suas heranças, complementando, mas não substituindo, o regime técnico de descolonização da ONU.
Foi aí que nossa bibliografia focou nos termos “imigração” ao invés de “colonização” e começou a apontar para a escravidão como a grande responsável pelas diferenças sociais no Brasil. Mas isso não explicava o preconceito contra nordestinos, não explicava os sistemas de colonato e boia-fria, não explicava a segregação imposta por lei, não explicava a desapropriação de terra, as guerras, os massacres… não explicava o racismo e as práticas coloniais desses chamados “imigrantes”...
Haviam critérios empíricos, históricos e científicos para considerar se uma região deveria ser descolonizada ou não; E apesar das metas serem para casos de colonialismo de um Estado Estrangeiro sobre outro, os casos de colonialismo interno, praticados por Estados soberanos, como aconteceu na África do Sul, levaram a medidas de reparação amparadas pelos mesmos conceitos.
Ou seja, se as pessoas no Brasil ganhassem consciência da sua própria história, e dos seus próprios direitos, o que aconteceria com esses colonizadores que vieram para o Brasil aos milhões?
Mas as evidências existiam… só estavam espalhadas como fatos isolados…eu precisava juntar todas as peças (Revista da imigração e colonização) … Mesmo no Museu da Imigração em São Paulo, ainda há a placa: “Imigração e colonização”.
A partir da minha pesquisa, identifiquei que parte expressiva dos intelectuais que criaram essa bibliografia que reconfigurou, no debate público e acadêmico, o termo colonização para imigração, faziam parte de uma rede de sociabilidade que lucrou com a recolonização do Brasil, ou são em sua maioria descendentes e herdeiros desse sistema; eles criaram uma rede de autoproteção e de legitimação, nos meios acadêmicos, intelectuais, e editoriais, um viés que conduziu o público para uma interpretação única; é o que minha tese chama de mito da imigração.
Na África e na Ásia criaram o mito do branco salvador, the white man 's burden, a ideia de que agentes colonizadores viriam “resgatar” populações tidas como inferiores. No Brasil a lógica foi semelhante, mas com mudanças sutis para nossa realidade. Na minha tese, chamo esse enquadramento de “mito do imigrante salvador”, e o “fardo do imigrante salvador”.
E identifiquei dois tipos de colonizadores:
-
O Colonialista reacionário: ator que é a favor de todos os tipos de colonização. Que defende ou normaliza a colonização em geral, naturalizando hierarquias raciais/culturais e a apropriação de terras; rejeita reparações e a crítica colonial.
-
E o Colonizador Progressista: ator que é contra, somente, a colonização portuguesa. Se apresenta como progressista/anticolonial, mas restringe a crítica apenas ao colonialismo português e silencia colonialidades praticadas pelos seus grupos de origem ou de sociabilidade e que desloca responsabilidades e atinge justamente públicos que clamam por reparação.
O mito do imigrante salvador legitima a colonização, como se os colonizadores estivessem salvando o Brasil de sua própria cultura, seja ela de qualquer origem: portuguesa, indígena, africana e até mesmo indianas, devido às influências orientais que os portugueses adquiriram na Índia Portuguesa. Como mostra a pesquisa da professora Célia Maria Marinho de Azevedo, em Onda Negra Medo Branco, os imigrantistas apontavam a “um defeito de origem” no Brasil, que poderia vir de qualquer um desses grupos, ou até mesmo de sua miscigenação.
A origem luso-brasileira e a mestiçagem com indígenas e negros foram, em grande parte, justificativas, dentro do racismo científico e do darwinismo social, para a recolonização interna do Brasil. Toda vez que eles criticam somente as responsabilidades portuguesas no colonialismo brasileiro, eles estão, na verdade, culpando os mais pobres, os mais vulneráveis, os que foram excluídos… e eximindo a própria responsabilidade histórica nesse processo.
Deslocaram suas responsabilidades para um inimigo imaginário, com frases vazias como “devolvam nosso ouro” em vez de promover reparações reais, como DEVOLVAM NOSSAS TERRAS, devolvam nossos espaços de PRESTÍGIO, devolvam a dignidade e o fruto do nosso TRABALHO.
Não por acaso, uma das desculpas da “Partilha da África”, associada ao Ato de Bruxelas (1890), criou uma retórica anti-escravista, mas na prática, tais justificativas conviveram com trabalho forçado, coerções e violências. O Brasil adaptou o mesmo discurso e as mesmas práticas desse mito justificador, reembalando práticas coloniais sob a linguagem da “imigração” e do “trabalho livre”.
O preconceito contra o Norte, os nordestinos, mestiços, índigenas e negros têm essa mesma origem, mas eles nos confundiram para se manterem no poder, e para nos dividir.
Eles tomaram nossas terras, alteraram nossa história, mudaram nossa cultura e, principalmente, a nossa percepção sobre nós mesmos.
O Brasil foi transformado em uma engenharia social autoritária, durante um dos momentos mais violentos da sua história e da história mundial.
Isso aconteceu no mundo inteiro, mas somente o Brasil ainda não se descolonizou.
Há anos pesquiso esse processo, desenvolvo esta tese e trabalho em silêncio para que nossa história seja recuperada.
Eu viajei para África diversas vezes em busca da minha ancestralidade, da origem das nossas culturas, e da nossa história coletiva como brasileiros.
Eu fiz um teste de DNA em 2014 e decidi descobrir minhas raízes, e usar a história da minha formação
Para minha busca de ancestralidade, e para me aproximar da história da África, estudei o seu processo de colonização, e foi isso que me levou a encontrar paralelos entre o que se chamava de “imigração” no Brasil e a colonização que ocorria pelo mundo.
Para me inspirar nesse processo de busca pelas conexões entre a África e o Brasil eu me aprofundei no pensamento de André Rebouças, que exilado após o golpe militar de 1889, viajou pela África para conhecer de perto o projeto “civilizatório” europeu.
Durante sua viagem, Rebouças escreveu em suas cartas as reflexões que tinha sobre o Brasil, suas heranças culturais, e compara com as práticas raciais e coloniais que ele encontrava pelo mundo;
Passei a pesquisar o porque o Brasil tinha tantos intelectuais negros e mestiços antes da vinda desses chamados “imigrantes” e como o Brasil podia ter mudado tanto.
o pensamento de intelectuais negros brasileiros, como Rebouças, Machado de Assis,
que percorri o mesmo caminho que os Portugueses fizeram até a fundação do Brasil… e descobri uma história que nos foi escondida…. algo que mudou totalmente minha visão de tudo…
Finalmente o Brasil vai recuperar alguns dos maiores apagamentos históricos que se tem notícia.
Chegou a hora de recuperarmos nossa história e entender o que faz do Brasil, a Nação do Passado.

